Práticas de BDSM

Práticas de BDSM

Embora não se fale muito sobre este assunto, as práticas alternativas conhecidas por BDSM são um estilo de vida único que começa a ganhar forma na imaginação e na intimidade de muitas pessoas fascinadas pelo que é novo.

As pessoas estão acostumadas a „não sair fora das línhas”, fora das conveniências ou normas estabelecidas há „milhares de anos”, porque isso… não se faz (não foi mencionado o motivo porque isso não se faz, mas de qualquer maneira não interessa, dado que foi decidido assim). Contrário às tendencias internas, há uma falsa vergonha dos que se escandalizam quando vêem os vídeos indecentes na TV (ou na internet), mas que olham com grande atenção, os que evitam qualquer tipo de discussão aberta sobre sexo, mas vão regularmente e pagam pela realização de fantasias totalmente fora do comum, agarram desperadamente na idéia de uma „normalidade” absoluta, mas de facto temem reconhecer a própria incapacidade de lidar com as diferenças e o desconhecido.

Por mais que a sociedade queira que tudo seja apenas um número limitado de comportamentos amorosos (geralmente válidos) que não incomodam nada as aparências no pedestal moral (que às vezes é tão falsa ao causar náuseas), a realidade mostra que não é assim tão complicado… homens que amam outros homens, mulheres insatisfeitas com uma convivência monogâmica, casais que querem receber em sua casa outros desejosos ou desejosas de emoções fortes, algemas, chicotes, máscaras ou até costumes usados para a estimulação. Assim, o universo do amor revela-se muito grande, escorregadiço e imprevisível. E a sua exploração é capaz de abrir largamente portas que alguns nem sequer sabiam que existiam. Isso não as rende menos existentes ou útils nos olhos curiosos dos atrevidos que querem avidamente descobrir o seu mistério.

Uma destas entradas, onde por muitos está escrito „Proibido entrar!”, revela o acesso ao ínsolito mundo das práticas que oficialmente são conhecidas por BDSM: Bondage/Discipline, Dominance/Submission, Sadism/Masochism. Para quem não sabe, isto quer dizer qualquer forma de interferência erótica envolvendo a dor (sadomasoquismo). Mas para os conhecedores, as coisas não ficam por aqui, mas são muito mais.

Normalmente, este fenómeno é presentado como uma caricatura que mexe com os traços deformando-os na sua espessura, por vezes maliciosamente. Responsáveis por este estado de coisas são os preconceitos e os estereótipos que lideram a visão geral que faz com que os praticantes do erotismo não convencional pareçam alguns espécimes bizarros, agressivos ou que devem ser mandados com urgência para o consultório médico mais perto. Um impacto muito forte na maneira em que este assunto é percebido, tem o ónipotente mídia que não é raro que exagere a forma e substância, de modo a chocar e ser senzacional, o que é indispensável à sua audiência.

O início deste tipo de actividades íntimas não pertence no entanto à sociedade moderna como muitas vezes promovem os discursos que associam o BDSM à liberação sexual das últimas décadas. Tem raízes muito mais profundas e, quanto à sua origem, as fontes indicam que o „amor” e a „dor” têm sempre sido relacionadas por indivíduos ou até por comunidades inteiras. Frequentemente se tratava de um ritual religioso, mas não necessáriamente. Os primeiros documentos que mencionam isso, mostram uma conexão singular entre as afinidades religiosas dos assírio-babilônicos e os traços específicos de erotismo agressivo que havia nas cerimónias dedicadas à deusa do amor, da guerra e da fertilidade Ishtar. A flagelação ritualica era também practicada em Sparta, sob os auspícios do chamado Culto da Orthia.

Entre as evidências gráficas muito antigas há também uma tumba etrusca de Tarquinia cujas paredes representam dois homens envoldidos numa evidente actividade sexual com uma mulher que golpeam com uma cana de açucar.

A perspectiva da antiguidade sobre as necessidades sexuais e a sua satisfação era instintiva, mas enriquecida por perceitos de filosofias justificativas, que lhe davam uma aura menos „animalesca”. Como princípio básico, no entanto, as pessoas não recusavam nunca de experimentar uma ampla gama de situações eróticas (daquelas que atrairiam hoje o opróbio público ou até mesmo uma „viagem” atrás das grades), sem algum tipo de sentimentos successivos de culpa, inadequação ou insuficiência. Este estilo de vida era comum a todos e, apesar das suspeitas precipitadas que possa tomar forma no presente, não era nada contrário aos ideais intelectuais, científicos ou culturais que eram próprios dos grecos e dos romanos, através da educação.

Sem querer expressamente (porque, por eles, as duas não eram mutuamente exclusivas) os antigos conseguiam harmonizar a sua tendência à „fornicação” (como seria vista hoje) com a sede de conhecimento e desenvolvimento pessoal. A imagem daqueles tempos pode ser um bom exemplo para os que associam a falta de inibições sexuais com a falta de instrução, maturidade/ estabilidade emocional ou com um quociente de inteligência baixo, como se apenas uma pessoa de pouca mente e sem muitas ambições para o futuro poderia osar de sentir a necessidade de fazer sexo de outra forma que nas normas: em dois (dois de sexo diferente, claro), isoladamente, em silêncio e, preferivelmente, com as luzes apagadas.

A cultura específica da antiga Roma é extremamente relevadora quanto aos hábitos, preferências e liberdades permitidas então em relação a este assunto. Não é uma novidade que os romanos gostavam da nudez (uma paixão resaltada aliás com obstinação inclusive nas suas realizações artísticas), practicavam a homossexualidade, eram comuns a escravidão sexual e às orgias depravadas, aceitavam e até incentivavam a prostutuição, e se declaravam mais do que abertos a costumes como o sexo anal, oral ou masturbação.

Nessa explosão de fantasias sem censura é óbvio que o elemento mais „duro” da sexualidade também se tem exprimido na vida „profana” (não necessáriamente religiosa) dos antigos romanos. Secções das obras de Juvenal e Petronius referem da flagelação „usada” para incitar sexualmente, dando assim indícios também da visão antiga sobre os limites de endurance no amor.

Por sua vez, os gregos eram também bastante inventivos e tolerantes quanto às tendências sexuais e à diversidade de as expressar. Ao contrário da sociedade de hoje que limita muito as beiras das practicas consideradas normais, os contemporâneos de Aristóteles exploravam practicamente tudo o que podiam explorar nessa área. Tal como os romanos, os gregos também não se limitavam a categorias exclusivas ou postais em preto e branco. „Amavam” tanto homens como mulheres, tinham concubinas, prostitutas, romances com rapazes novos e imaculados, celebravam o sexo em todas as formas possíveis e se sentiam em pleno direito de fazê-lo. Imaginavam até a própria infinidade de deuses que conduzia as suas existências numa promiscuidade inigualável.
O castígo físico aplicado às vezes às escravas tinha por sua vez um substrato puramente sexual, mas que era explorado em detrimento do prazer. Entre estes, conta-se também o método de introdução no ânus ou na vagina de uma raiz de gengibre que, depois de a descascar, era mantida assim por mais ou pouco tempo, o suficiente para causar uma sensação de queimação e desconforto. O procedimento disciplinar foi ulteriormente adquirido pelos romanos também e conservado de forma semelhante até na época vítoriana, integrado posteriormente, com as respectivas variações, nos jogos de tipo BDSM, diferenciadas pelo elemento de coerção existente inicialmente.

Referências mais evidentes podem ser encontradas nas páginas da coleção vasta de textos a caracter instrutivo Kama Sutra, que trata da questão do prazer, mas também da segurança, indicando ao mesmo tempo a maneira e o lugar onde bater em determinas zonas do corpo durante a actividade sexual, o que se deve saber por evitar eventuais perigos e o que é necessário para que todos os participantes expressem o seu consentimento prévio. A atenção para a segurança e para o livre arbítrio das pessoas envolvidas, destaca as semelhanças impressionaveis que há entre o Tratado de sexologia Hindu e a actual folosofia do BDSM.

Informações mais próximas ao presente podem ser encontradas na literatura inglês do século XVI-XVII, que alude à profissão de „Senhora” (os epigramas de John Davies de 1590), e aos actos de flagelação practicados para provocar prazer (o romance de John Cleland, Fanny Hill, em 1749).

Os esclarecimentos históricos não param por aí e os especialistas apontam que a sexualidade tem acompanhado por perto o desenvolvimento da cultura humana, independentemente da amplitude, do aspecto ou das motivações q ue tinha. No lado oposto, há os que afirmam numa só voz que o desejo instintivo para o diferente é o produto obscuro da modernidade, a praga de uma sociedade que perdeu a direção e os pontos de referência. A liberdade sexual iniciada no século passado não é, todavia, responsável por ter dado à luz monstruosidades que se fingem novas expressões do eros, mas apenas para permitir que algumas realidades existentes possam rebentar através do seu afastamento da etiqueta imprópria de patologia amorosa necessitante de tratamentos médicos e sessões terapêuticas avançadas.

Ainda mais, o grande salto que este fenômeno tem feito ao longo do tempo é o co-envolvimento no „erotismo” diferente e a procura dum prazer não apenas unidireccional, mas para todos os que participam à acção.

Reconhecer os instintos naturais como tais e criar um ambiente propício à sua sua expressão já não é, infelizmente, uma característica da sociedade contemporânea, como costumava ser antes, quando o comportamento erotico era menos submetido a regras restritivas universalmente válidas, e as manifestações aceites eram de acordo com as inclinações naturais. Diferentemente do que occoria então, esconder sob o tapete todos os instintos „indesejaveis” é a meta suprema que se persegue hoje.

A estratégia ideal estaria, porquanto, algures no meio. O desempenho dos antepassados de elevar a falta de censura à categoria de virtude, não garantia algum conseguimento de ideais que fossem satisfatórios para todos, havendo frequentemente situações em que a coerção era evidente tal como o interesse unilateral ou o privilégio sexual que derivava de uma determinada condição social. O que significa que aquilo que era permitido para alguns, atraia a miséria dos outros. Mas além dos efeitos colaterais que a criação de desigualdades gerava (efeito que, se calhar, tem a ver com outros aspectos, talvez ideologicos), a necessidade de se manifestar de modo complexo sexualmente que tem definido a sociedade humana dos inícios até agora, mostra que o que está acontecendo hoje no mundo não é o fructo de uma realidade recente ou de qualquer capricho artificial inventado da noite para o dia por uma banda de antisociais aborrecidos.

A luz desfavoravel lançada sobre tudo o que tem a ver com o BDSM não nasce por causa da novidade ou do extremismo deste tipo de costumes (visto que eles sempre existiram), mas da tendência que a sociedade tem de intelectualizar excessivamente a sexualidade e de tornar mais exigentes os criérios que delimitam o bem do mal, normal e anormal, aceitável e intolerável.

Do ponto de vista etimológico, o termo „sadismo” vem do famoso Marquês de Sade, um indivíduo com afinidades eróticas especiais, desenvolvidas apesar da lei e puníveis com vários anos de prisão e institucionalisação psiquiátrica. No entanto, o „Masoquismo”, deve-se ao escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch que gostava muito de ser o escravo obediente e penitente de uma esposa tirânica pronta para punir qualquer irregularidade. Mas o homem que usou pela primeira vez estes termos juntos (sadomasoquismo) foi o psiquiatra Richard von Krafft Ebing, autor da importante obra Psychopathia Sexualis (1886).

Também Sigmund Freud tem usado esta terminologia, e foi o seu colaborador nas pesquisas sobre fetiches e homossexualidade (Isidor Isaak Sadger) que fundiu os termos definitivamente dando o nome que hoje se encontra no vocabulário de todos. Se o nome foi conservado intacto, o mesmo não se pode dizer sobre o significado que lhe é atribuido. A interpretação rigorosamente medical que se preferia originalmente, tem sido gradualmente reavaliada, os militantes do início do século XX lutando contra a percepção do sadomasoquismo com base apenas num pequeno número de casos psiquiátricos. Eles insistiram também que as prefências reunidas no conceito de sexualidade alternativa não são de modo algum anomalias, mas sim simples opções, pertinentes como as tradicionais, e propuseram subsequentemente a etiqueta de BDSM (em 1969), tentando assim de redefinir tanto o nome, quanto a essência do objectivo pelo qual militavam.

Após várias „contas” médicas sobre os que „acusavam” preferências amorosas especiais, concordou-se unanimamente que tais comportamentos não eram mais do que meros distúrbios psico-emocionais que só seriam erradicados através de tratamento especializado e terapia que manteriam o indivíduo numa condição „aceitável”. O estigma de „doente mintal” continuou a acompanhar como uma nuvem escura e obstinada todos os que se afastavam da normalidade. Subsequentemente, o diagnostico dependeu de determinadas consequências adversas socio-professionalmente (inadaptação) ou por ignorar a vontade do parceiro (falta de consentimento). Foi só em 1995 que a Dinamarca deu o primero passo e revolucionou o sistema de avaliação, eliminando o sadomasoquismo da lista negra das doenças do Manual Nacional de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais. O exemplo foi seguido pela Suécia (2009), Noruega (2010) e Finlândia (2011).

Aos olhos do público, as práticas extravagantes começaram a se tornar visíveis e homogêneas com a popularização, através da indústria porno dos anos 1950-1960), das cenas e imagens com subtrato „dramático” (relevantes para isso são as idéias de Irving Klaw que apresentou nas suas criações vários símbolos específicos ao BDSM, incluindo o bondage).

A instituição da comunidade Gay Leather após a segunda guerra mundial (uma subcultura das pessoas homossexuais que procuravam solidariedade e consenso), também desempenhou um papel importante no fortalecimento do fenômeno, através da união dos que tinham paixões „incomuns” no grande manifesto por um estilo de vida não-conformista. Aos poucos, foram se separando da organização-mãe e conseguiram tornar-se independentes por si mesmos, separados do adjectivo gay que os caracterizou originalmente. Foi assim que os amantes do BDSM veiram a fazer parte de todas as categorias, indipendentemente da orientação ou da identidade sexual que tinham.

Reforçar as relações entre eles, bem como aprofundir os interesses comuns, passaram a ser muito mais fáceis com a explosão dos serviços internet, que forneceram informações novas, múltiplas, plataformas de socialização e facilidades para a compra de acessórios ou brinquedos eróticos para essas práticas.

Como é visto o BDSM pelos que não o conhecem e como se vê com os olhos dos que conheceram pessoalmente os seus meandros?

Vista de fora, a afinidade pelos amores „agressivos” resume-se ao prazer „sinistro” de sentir dor e à loucura de deixar entrar no universo da paixão todo o tipo de utensílios estranhos ou costumes igualmente estranhos. Do interior, as coisas são um pouco mais sutis. Têm explicações pshicológicas, definições rigorosas e uma filosofia escrupulosamente organizada.

A idéia central deste fenômeno é que as pessoas não sentem atraídas tanto pela „obsessão” de provocar dor no outro, como pelo prazer de tornar a relação numa troca de poder com uma hierarquia onde os papeis são bem definidos: um dos dois é o Dono, o outro o Submetido. Um desejo que pode parecer absurdo nos olhos das pessoas que não sentem da mesma maneira ou que, apesar de sentirem da mesma maneira, recusam obstinadamente ter qualquer coisa a ver com os desvios do „caminho certo”.

Não são o terror, medo e sofrimento os objectivos supremos deste tipo de cenários, usar a todo o custo o chicote, as correntes ou as cordas, mas sim a assunção de papeis completamente opostos. Investir ostensivamente um dos parceiros com poder de decisão e o outro com a misão de se submeter, reflete, afinal, a miragem deste tipo de interação, o principal elemento que o distingue das relações clássicas, baseadas nas posições de neutralidade.

É bom saber também que não são só as casas particulares que podem servir de abrigos para a encenação de episódios deste tipo (no BDSM, por „cena” entende-se tanto o lugar onde se realiza a acção, como o „tema” do cenário). Ainda que as pessoas que entendem a „intimidade” no seu sentido tradicional, não gostariam qualquer outro lugar de exteriorização, há também adeptos que adoram os espaços „públicos” especialmente designados, onde os convidados podem somente assistir, provar ou até executar mesmo, publicamente ou não, o que é chamado de „brincadeira”. Esses espaços são organizados seja nos clubes dedicados para os membros afiliados, seja hospedados por pessoas particulares, encantadas de ocasionalmente transformar a sua casa num pequeno paraíso da diversidade (tendo a grande vantagem de pôr à disposição dos visitantes uma completa dotação de equipamentos mais ou menos incomuns).

Entre os „exercícios „ amorosos que podem fazer os apaixonados durante uma sessão (período determinado de tempo, em que ocorrem os próprios actos) há:
- a flagelação (Flogging)
- a palmada e a chicotada (Spanking/Whipping);
- a ligação(Bondage);
- a eletroestimulação erótica (Erotic Electostimulation);
- o contrôle (Control);
- a tortura ”Cock&Ball” (Cock&Ball Torture);
- a tortura com água (Water torture);
- os chuveiros de ouro (Golden showers);
- os jogos ao limite (Edgeplay);
- os jogos de papel (Sexual roleplay);
- o jogo com a cera (Wax play);
- o jogo medical (Medical play).

Note-se que, na prática do BDSM, consacrou-se um uso predominante dos termos ingleses, tanto devido à influência da internet como da sensação que a pronuncia estrangeira atenua ligeiramente o “incomum” da acção que designa.

A lista é muito mais consistente do que foi aqui presentado, e a prática em si pode variar segundo as preferências pessoais, da ousadia, do grau de experiência, mas também das possibilidades de direção (os instrumentos) disponíveis. Todas as estratégias usadas estão sujeitas, no entanto, ao mesmo objectivo de transferência de poder, em que estão interessadas as três facetas do erotismo em discussão: Bondage&Discipline, Dominance&Submission e Sadism&Masochism.

 

Bondage&Discipline. O termo „bondage” refere-se, como o nome sugere, à limitação da liberdade de movimento do parceiro. Segundo os estudos de especialidade, a estratégia é também usada, em certa medida, pelos casais „comuns” que, na necessidade de tornar mais picante a relação, podem usar pequenos truques como estes. No caso dos parceiros experimentados, já se trata de acessórios especiais, como cordas, algemas, varetas, barras divisórias ou a chamada „Cruz de Santo André”, muitas vezes integrada nesse tipo de jogos excitantes. Pode ser activo seja o parceiro dominante, seja o submetido, visto que começar um tratamento de imobilização não depende da localização hierárquica dos papeis. A intensidade e a complexidade da vasta gama de actividades que podem ser abordadas, dependem exclusivamente das preferências, experiência e, claro, os limites de resistência que cada um estabelece, de comum acordo.


O termo „discipline”, o outro lado do B/D, sintetiza as implicações psicológicas da estratégia, com referência específica ao modo em que um dos parceiros exerce o contrôle sobre o outro, apoiado pelo rigor das regras definidas, punições, humiliações, dores fisícas e não só. Tal como acontece nos outros „scripts” levados ao extremo, estes também devem respeitar a vontade e os limites dos „intérpretes” que expressam as próprias opiniões sobre o prazer e a gratificação sexual.

 

Dominance&Submission. Este conceito define o conjunto de atitudes e comportamentos que concretizam a relação de submissão estabelecida entre os participantes, entre a pessoa que controla a acção (o Dominador) e a pessoa que cumpre (o Submissivo). Isto geralmente implica a existência dos jogos de poder, sedutores pelas pessoas envolvidas e bizarros nos olhos das pessoas que os conhecem apenas das línhas secundárias: o jogo de papeis (Roleplay), o jogo de idade (Ageplay), o jogo de educação (reinterpreta, segundo o contexo, o sistema clássico de punições e recompensas), o jogo em que um dos „actores” desempenha o papel de animal de estimação (Petplay), o jogo da rejeição sexual ou em que o parceiro é tratado como um escravo, cena que se realiza e é deslocada inclusive no espaço público (nessas situações a inferioridade é revelada através do uso de colares, tatuagens ou piercings simbólicos que „denunciam” a pertença a um „Dono”).

Por mais chocantes que possam parecer tais condutas, elas passam a ser uma normalidade para quem as integra no próprio estilo de vida, como uma brecha por onde liberar as emoções quanto mais naturalmente, de maneira diferente da maioria, pelo menos em termos de falta de repressão.

A realidade interior só pode ter correspondência no plano real quando há uma comunicação aberta e baseada na transparência e na confiança. Isso porque os parceiros aceitam uma responsabilidade imensa, visto que não é fácil nem de impor a sua vontade ao outro (a situação requer uma quantidade considerável de empatia), nem de subir (paradoxalmente, as pessoas que optam por isso não devem comprovar fraqueza, mas sim uma força particularmente pronunciada). A confiança é, portanto, o elemento-chave sem o qual nada se pode fazer ou, na sua ausência, todas as boas intenções dos parceiros são rebaixadas a um nível irrelevante, inútil e ineficiente.

Outra questão fundamental nesta equação é o consentimento. Entende-se que andar pela cidade com o parceiro a coleira, puni-lo como um adelescente rebelde ou lhe entregar todo os tipos de tarefas, como a um subalterno consciencioso, sem previamente obter o seu acordo por estes tratamentos „especiais”, é sem dúvida uma questão muito reprovável. A fim de eliminar as imposições não assumidas, as dúvidas, mas também os riscos implícitos, os protagonistas recorrem normalmente aos „contratos”. De facto, documentos sem valabilidade juridica, mas com significação pessoal, simbólica, que estabelece do início, as regras de funcionamento do mecanismo de relação: o que é permitido e o que não é, o que sai fora do âmbito das actividades permitidas e o que se pode negociar, o que esperar ou não… do outro. Somente após a expressão das expectativas, a clarificação das condições e as respectivas assinaturas, os dados podem ser… tirados.

 

Sadism&Masochism. O sadomasoquismo é, como todo o mundo sabe, a paixão pela combinação entre o prazer e a dor, os actos agressivos, as palmadas, batidas, chicotadas, beliscos e „outros” que já são famosos. Sobre este capítulo do BDSM, foram criadas muitas histórias ao limite das histórias de horror. A maioria descrevem os sádicos (os que provocam dor) e os masoquistas (os beneficiários dos tratamentos „impiedosos”) nas cores sombrias do extremismo ou da patologia.

Além dos exageros com os quais são vistas estas practicas, se elas existem e são voluntariamente adoptadas por alguns casais, significa que correspondem a necessidades que não se podem contestar ou inibir para sempre. Por exemplo, o paixão que alguns têm por uma linguagem chula ou até „violenta” durante os momentos „quentes”, não deviam contrariar ou assustar, dado que esta modalidade de expressão foi sinceramente consentida por todos os participantes e, no final do dia, ninguém fica ferido no hospital.

Portanto, a diversidade sexual não é um capricho (nem aceitá-la como tal), mas sim uma expressão normal da natureza humana que não pode ser restrita numa única maneira de ser, que convem apenas até um certo ponto (imposto por regras relativas no tempo e no espaço).

Considerando as características especiais da transferência de poder, bem como os elementos de perigo que muitas vezes realizam a sua forma, todas as pessoas que são experientes no BDSM (ou que são ansiosos de passar da teoria à practica), devem obrigatoriamente passar pelas mesmas etapas absolutamente necessárias por uma experiência que não acabe com: „O que estava eu pensando ao fazer isso? Não vou nunca mais repetir!”

Antes de começar, todos os iniciantes têm a possibilidade de se informar de forma adequada. E ainda recomenda-se fazê-lo. O que é que implicam as práticas de dominação e submissão? Qual é o âmbiente onde estas são desenvolvidas? O que é permitido e o que não é nos jogos de BDSM? Porque é que eu quero experiementar este tipo de coisas? são apenas algumas das perguntas que não devem ficar sem respostas. E os sítios, as organizações ou seminários especializados podem fornecer importantres esclarecimentos sobre todos estes mistérios.

Escolher com atenção o parceiro é, também , uma condição que não pode e não deve ser ignorada, pois nem qualquer indivíduo (seja ele desconhecido ou bem conhecido, não acostumado ao universo do erotismo atípico ou perfeitamente integrado nele), oferece a garantia que seja o parceiro perfeito por uma aventura excêntrica com roupa de couro, algemas e chicote. O que deve definir a intimidade dos parceiros é a confiança genuína. As actividades que vão desenvolver desafiam todos os níveis do ser (tanto fisica como mentalmente), portanto não se podem dar ao luxo de aceitar, no seu território intrínseco, uma presença incompatível a nível de aparência, experiência, interesse ou juizo.

A negociação é tambem uma componente fundamental no processo de transição prévia à acção. Concordar sobre a experimentação em primeira mão do amor „perigroso”, não significa que tudo passa a ser possível, permitido e apetecível. É provável que alguns gostem de ser ligados à cama, mas não gostem das palmadas. Ou vice-versa! As posibilidades são múltiplas e a selectividade deve estar a níveis máximos. Por isso, é aconselhável que a acção em si seja precedida por longas e claras conversas sobre os limites de tolerância que cada um quer impor, conforme as próprias preferências e necessidades.

Usar as chamadas „palavras de segurança”, como vermelho (que equivale a „pára!”) ou amarelo (que equivale a „abranda!”) é mais do que benéfico, porque acontece que no calor do momento, a personagem activa seja excessivamente zelosa improvisamente ou que o passivo fique surpeendido pelas próprias reações inesperadas devidas ao tratamento que acaba de receber. O objectivo destas expressões (que os parceiros podem escolher em conjunto, sem necessáriamente se limitar às clássicas, incluindo também as manifestações não-verbais) é de evitar os excessos e os desvios desconfortáveis.

Outro grande princípio que devem entender aqueles que pensam em practicar as experiências sexuais incomuns, refere-se à transferência de poder pretendida, que não nega a individualidade ou a autonomia da pessoa que assume o papel de submetido, mas reflete apenas a sua vontade de se deixar nas maõs de outra pessoa, ser dominado e tornar-se o centro de interesse numa maneira honesta e exclusiva.

Não há forma de interacção humana, independentemente da sua natureza, que não fuja a supresas, altos, baixos, vantagens ou desvantagens (com várias intensidades e frequências). E as relações BDSM são expostas ainda mais a tais oscilações ou falhas no ridículo. Esta é a razão porque deve-se sempre ter total precaução. Que se trate de compromissos a curto ou a longo prazo, ou de parceiros fixos ou múltiplos, ou da fidelidade frente ao papel de dominador/submetido contra o hábito de fazer malabarismos com os dois, tendo o não interesse material... a prevenção e a prudência devem ser sempre as chaves sem as quais não se podem abrir nenhum tipo de “entradas”.

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